Xenofobia e blablablá na propaganda eleitoral

BERLIM, por Yara Castanheira

Berlim está repleta de cartazes de propaganda eleitoral, há também outdoors e pessoas debaixo de guarda-sóis coloridos (ou guarda-chuvas, porque muita água já rolou por aqui neste período chamado oficialmente de verão) distribuindo livretos de campanha dos diferentes partidos.

Em menos de quinze dias, no dia 18 de setembro, haverá eleições para a Câmara dos Deputados. Como estrangeira não pertencente à comunidade europeia, não tenho direito de votar nas eleições, porém isso não me deixa livre dos tais cartazes afixados pela cidade.

No bairro em que moro, Kreuzberg, não vi nenhuma propaganda do Partido Nacional Democrata da Alemanha (NPD), de extrema-direita. No entanto, devido a problemas oculares, tive que ir recentemente ao plantão de um hospital no bairro Neukölln – e eis que me deparei com dois cartazes do NPD inacreditavelmente xenófobos. (Se eu não estivesse acompanhada, teria pensado que eram produto da inflamação dos meus olhos!) O primeiro apresenta três estrangeiros – ao que tudo indica, um representante árabe, um turco e um negro – sentados num tapete voador, com o slogan “Boa viagem de volta” (Gute Heimreise).

O segundo traz o presidente do partido, Udo Voigt, com roupa de couro e montado em uma moto; acompanhando o nome do candidato e o do partido, a expressão Gas geben. Se na linguagem cotidiana essa expressão significa “acelerar” (o que combinaria tanto com a imagem da moto quanto com uma possível ideia de aceleração de decisões políticas), literalmente quer dizer “dar gás”. Vindo de um partido de extrema-direita, na Alemanha, o trocadilho funesto remete inevitavelmente às câmaras de gás dos campos de extermínio do regime nazista. Logo depois, vi o mesmo cartaz nas redondezas do Memorial ao Holocausto, que fica perto do Portão de Brandemburgo, e também em frente ao Museu Judaico.

Na Suíça, a situação não é diferente. Lá a presença de propaganda xenófoba é massiva. Em passagem por Zurique durante o evento Street Parade, em meados de agosto, o que mais me chamou a atenção foi o contraste entre mensagens de liberdade e de intolerância. De um lado, a Street Parade a comemorar vinte anos de “Amor, liberdade, tolerância e respeito” e, do outro, um outdoor a exigir o fim da imigração em massa. A imagem mostra somente as pernas e os pés de pessoas vestidas de preto pisando a bandeira suíça, com os dizeres “Chega de imigração em massa!”. Não se vê o rosto de ninguém, tudo é bastante impessoal, transmitindo a impressão de uma massa homogênea de imigrantes, os inimigos.

Saindo da problemática da xenofobia, parece que o blablablá em propaganda eleitoral é mesmo internacional. Atualmente, os dois partidos com maior representação na Câmara dos Deputados berlinense são a União Democrática Cristã (CDU), com 36 cadeiras, e o Partido Social Democrata (SPD), com 53. Apresentando Klaus Wowereit como candidato à reeleição para prefeito, o slogan principal do SPD é “Entender Berlim” (Berlin verstehen). Fiquei pensando se quem deve entender a cidade são os políticos do partido, os moradores ou todos. No site oficial do partido, encontrei a explicação: somente quem entende Berlim é capaz de governar Berlim. Então tá.

Já a União Democrática Cristã (CDU) usa outra estratégia: apela para o clichê eleitoral da mudança. Seu lema é “Para que algo mude” (Damit sich was ändert). É exatamente isso que muitos habitantes de Berlim e também os turistas amantes da cidade temem, que Berlim mude e perca seu charme, sua elegância com toque decadente e nostálgico. O que, aliás, já vem acontecendo, principalmente devido à especulação imobiliária: o aumento desenfreado do preço dos aluguéis e a consequente gentrificação da cidade têm causado dor de cabeça a vários moradores.

E o Partido Verde? Os Verdes querem “Uma cidade para todos” e querem também que a candidata Renate Künast vire prefeita de Berlim. Para pessoas como eu, que não têm direito ao voto, nos resta uma ínfima participação online no site dos Verdes. Lá qualquer um pode completar um cartaz dentro do modelo “Uma cidade para … e …”.

* Yara es periodista brasileña y trabaja actualmente en proyectos culturales en Berlín. Recibió su título de maestría en Medios, Comunicación y Estudios Culturales de las Universidades de Kassel (Alemania) y Londres (Inglaterra).

Un pensamiento en “Xenofobia e blablablá na propaganda eleitoral

  1. Europa está incluso abierta a la tolerancia de la intolerancia. Tal como lo viste en el Street Parade de Zuerich; Saludos de Honduras Yara muy buen artículo

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