Um convite a saborear o lixo

Credits: Taste The Waste 

BERLIM, por Yara Castanheira

A música é dramática, os testemunhos são reveladores, as imagens são chocantes. O filme Taste the Waste, que estreou em Berlim, foi para mim a explosão deste mês. Que a fome no mundo –principalmente na África– é um problema que poderia ser evitado todos nós já sabíamos. Que há um enorme desperdício global de alimentos também. Mas ver as imagens aumenta o impacto e eu ainda não conhecia alguns números assustadores relacionados à Alemanha e à União Europeia.

Por exemplo, eu ignorava que mais da metade dos alimentos acabam no lixo, na maioria das vezes, mesmo antes de chegarem ao consumidor, e que 90 milhões de toneladas de comida são desperdiçadas a cada ano na União Europeia. Só os alemães jogam fora 15 milhões de toneladas de alimentos anualmente, o suficiente para encher 500.000 caminhões enfileirados entre Berlim e Pequim. 20 bilhões de euros em comida vão parar na lixeira dos lares alemães a cada ano, o equivalente ao lucro anual da rede de supermercados Aldi, uma das maiores do mundo.

O filme busca em várias fontes – entre padeiros, pesquisadores, funcionários de supermercados, consumidores, fiscais do mercado grossista, fazendeiros e ministros – as causas de tamanho desaproveitamento. Também são apresentadas alternativas para diminuir o desperdício e, consequentemente, os impactos ambientais. Afinal de contas, no que diz respeito ao clima mundial, se o lixo proveniente do desperdício de comida fosse reduzido à metade, isso seria como retirar de circulação um a cada dois carros no mundo.

As imagens de Taste the Waste nos deixam com a sensação do absurdo completo. O excesso de uns é a falta de outros. Muitas das regras que provocam o desperdício são criadas pelo nosso próprio comportamento como consumidores. São os tomates que queremos vermelhinhos, as batatas que não podem ser grandes demais nem pequenas demais, as frutas que devem brilhar e não ter nem um amassadinho, o pão que precisa estar sempre fresco na prateleira até tarde da noite. Devido a fatores estéticos (!), muitos alimentos já são pré-selecionados antes mesmo de saírem do terreno agrícola. Outros viajam quilômetros, do Quênia ou de Camarões, por exemplo, para irem diretamente a um lixo europeu – um “turismo” caro e inútil.

O documentário de Valentin Thurn é um convite a saborear o lixo. Há muitos alemães que, por opção e como forma de protesto contra a cultura do descartável, coletam no lixo os ingredientes para suas refeições diárias, são os chamados “dumpster divers” ou “mergulhadores do lixo”. Este tipo de ação originou-se nos Estados Unidos, incluindo os “trash tours”, nos quais os veteranos apresentavam aos iniciantes os contêineres mais cobiçados. No entanto, ao contrário dos Estados Unidos e da Inglaterra, na Alemanha o lixo pertence ao dono até que este o “repasse” ao lixeiro. Portanto, “dumspter diving” aqui é considerado furto. Naturalmente, tal lei é festejada pelo sistema capitalista, pois, se você acha comida no lixo, 1) você não precisa mais comprar, ou seja, estatisticamente é como se você não comesse e 2) você pode trabalhar menos, porque tem menos gastos.

Para acompanhar o filme, o diretor Valentin Thurn e o jornalista Stefan Kreutzberger lançaram o livro Essensvernichter (Kiepenheuer & Witsch Verlag, 2011, 320 pág.), em tradução literal Destruidores de comida. É uma mistura de fatos concretos e observações pessoais, ou como dizem os próprios autores, um híbrido de livro de não-ficção e filme de autor. Para quem lê em alemão, vale muito a pena.

* Yara es periodista brasileña y trabaja actualmente en proyectos culturales en Berlín. Recibió su título de maestría en Medios, Comunicación y Estudios Culturales de las Universidades de Kassel (Alemania) y Londres (Inglaterra).

2 pensamientos en “Um convite a saborear o lixo

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