Da ficção para a medicina alemã

http://jboard.loriot.de/

BERLIM, por Yara Castanheira

Em agosto deste ano, aos 87 anos, o humorista mais famoso e versátil da Alemanha foi enterrado no cemitério Waldfriedhof, aqui em Berlim. A morte de Vicco von Bülow, mais conhecido como Loriot, foi manchete de praticamente todos os jornais do país, que entrou em luto.

Segundo o britânico The Guardian, a reação das pessoas diante do falecimento do seu “mais amado cômico do pós-guerra” indica que os alemães de fato levam seu humor bastante a sério.

Loriot começou sua carreira nos anos 1950 e desde então não parou de provocar risos. Com os filmes Ödipussi (1988) e Pappa ante Portas (1991), dos quais foi diretor, roteirista e ator, ficou consagrado como o mestre do humor alemão. Crítico e irreverente, trazia à tona questões do cotidiano e das relações humanas.

Ele também criou diversos esquetes de abordagem política e de crítica à sociedade burguesa. Em um dos meus favoritos, Loriot apresenta o debate entre o diretor de uma escola de cinema e um crítico sobre um plano cinematográfico com duração de cinco segundos. É hilário como eles carregam de sentido uma cena tão banal. Enquanto um divaga sobre a tragédia grega e a psique, o outro, de formação marxista, só consegue enxergar a luta de classes.

Vários cartoons de Loriot estamparam uma série de selos postais, porém uma de suas criações conseguiu inclusive a façanha de entrar para o mundo real. O roedor fictício Steinlaus – em português ‘piolho de pedra’, chamado cientificamente de Petrophaga lorioti – faz parte da obra de referência da medicina na Alemanha, a enciclopédia Pschyrembel da editora berlinense Walter der Gruyte. Como uma brincadeira da redação, em 1982 o termo foi acrescentado à edição de número 256, tendo sido, no entanto, retirado da publicação seguinte. Diante dos protestos dos leitores, o Steinlaus foi reintroduzido à edição 258, em 1997. O animal fora excluído da versão anterior porque teria sido equivocadamente classificado como em extinção, já que, com a queda do Muro de Berlim, sua comida teria se tornado escassa.

O bichinho é tão minúsculo que pode ser visto apenas por meio de microscópio, mas tem um apetite de leão: ingere diariamente cerca de 28 quilos de concreto e tijolo, sendo que a fêmea necessita de quase o dobro dessa quantidade durante a prenhez. Como a espécie se alimenta de materiais de construção e não faz distinção entre os prédios em uso e os abandonados, os estragos causados são inversamente proporcionais ao seu tamanho. Ela já provocou o desmoronamento de edifícios públicos, inclusive uma ou outra igreja, e hoje está de fato ameaçada de extinção.

Atualmente, são conhecidas 21 subespécies, como, por exemplo, a Petrophaga lorioti nephrotica, utilizada no tratamento de pedras nos rins. Como essa raça se alimenta exclusivamente de oxalato de cálcio, principal componente do cálculo renal, ela é introduzida no corpo do paciente, sendo capaz de eliminar um cálculo de 20 milímetros em questão de segundos. Segundo o doutor Friedrich Kögel, a vantagem desse método é que ele é praticamente livre de efeitos colaterais. Após digerir todas as pedras, o roedor morre de fome e é absorvido pelo organismo humano.

http://jboard.loriot.de/

É, parece que o The Guardian resumiu bem a relação dos alemães com seu humor. E eu também me divirto com os artigos sobre o piolho de pedra, todos escritos com seriedade e apuro científico por pesquisadores reais. Nem parecem brincadeira, uma verdadeira sátira científica. Mesmo que o célebre esquete do Steinlaus, apresentado por Loriot no papel do professor Bernhard Grzimek, não tenha legendas em inglês, vale a pena assistir e imaginar a narração.

* Yara es periodista brasileña y trabaja actualmente en proyectos culturales en Berlín. Recibió su título de maestría en Medios, Comunicación y Estudios Culturales de las Universidades de Kassel (Alemania) y Londres (Inglaterra).

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