Latinoamericanos en el mundo. El año que termina: Berlín

BERLIM, por Yara Castanheira

Depois de seis anos de Alemanha, várias coisas que a princípio me despertavam a atenção, aos poucos se tornaram “normais”, corriqueiras. No entanto, morei em outras cidades alemãs antes de me mudar para a capital do país, e, como Berlim não é a Alemanha e vice-versa, o ano de 2011 trouxe algumas experiências e novidades.

1. Este foi o ano das interações entre passageiros do metrô, onde geralmente reina o silêncio. Até no facebook foram postados vídeos de conversas espontâneas e “crises de riso coletivo” nesse meio de transporte.

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Acabei vivenciando alguns momentos cômicos no subterrâneo. Nos vagões, todos os dias há vários músicos de rua e vendedores do Motz, o jornal dos desabrigados de Berlim. Eles compram o periódico por 80 centavos para vendê-lo por 1,20 euro. A apresentação do produto é parecida com a dos pedintes e vendedores de rua no Brasil, pedem desculpas pelo incômodo e tal, mas pulam a parte do “eu poderia estar roubando e matando”.

No entanto, eles não parecem estar muito interessados em vender o jornal, que é mais pano de fundo para uma esmola. Preferem “uma pequena contribuição ou algo para comer”. Neste dia, de fato, uma passageira estava a ponto de tirar alguma comida da bolsa quando o homem, antes mesmo de ver o que ela tinha a oferecer, disse prontamente que era vegetariano. E continuou a murmurar coisas hilárias sobre o leite que vem da vaca e não sei mais o quê. Isso desencadeou uma conversa entre os passageiros, com comentários do tipo “é claro que ele está interessado em outra coisa, vocês sabem, comida é que não é; na Alemanha ninguém precisa passar fome”.

2. Bom, para equilibrar a equação “silêncio – ruído”, nada mais lógico que transferir o silêncio do metrô para outro lugar. Que tal para os bares? Afinal de contas, é bom se comportar e não rir muito alto ou conversar durante um show de música ao vivo. Só posso pensar que seja inveja da felicidade do próximo. Há inclusive uma palavra de origem alemã que me assusta um pouco, Schadenfreude, utilizada especificamente para designar o sentimento de alegria diante dos infortúnios e da infelicidade alheia (Schaden = dano, prejuízo; Freude = alegria, prazer).

Com amigos, fui abordada algumas vezes por “mau comportamento”, sexta-feira à noite, em um bar – não no cinema, ou no teatro, ou na igreja, ou no ônibus, ou no restaurante, e eu poderia seguir com a lista. Certa vez, depois de uma partida de totó, eu e uma amiga que estava de visita encontramos um bilhetinho na nossa mesa, pedindo para que parássemos de gritar como prostitutas. E olha que ainda não havíamos bebido uma gota de álcool e nem estávamos vestidas fazendo jus à profissão mais antiga do mundo.

3. Aliás, a comunicação por bilhetinhos é frequente na Alemanha. Não é raro vizinhos ou companheiros de república deixarem notificações debaixo da porta, na caixa de correio ou na mesa da cozinha. Em Berlim, porém, a comunicação por bilhetes e cartazes pode ser bastante original e divertida. Em 2011, me deparei com várias avisos interessantes. O site Notes of Berlin traz mensagens incríveis encontradas por moradores nas ruas de Berlim.

Grande parte das mensagens do site foram encontradas nos bairros Kreuzberg e Neukölln, a segunda região do mundo com maior concentração de turcos, perdendo somente para Istambul, dizem. Há pouco comecei o processo de transferência da minha carteira de motorista do Brasil para a Alemanha. Foi aí que senti de perto o peso da cultura turca em Berlim. No começo do curso de primeiros socorros, em meio aos véus e às conversas em turco, o instrutor pediu desculpas, já que aquela aula seria em alemão. Quem não falasse a língua deveria comparecer nos horários ministrados em turco. Já na fase dos exercícios práticos, tínhamos que escolher um parceiro. Perguntei ao colega ao lado se poderíamos fazer juntos. Ele não pareceu gostar da ideia. Uma mulher logo se aproximou e pediu para ser minha parceira. Entendi que não haveria nenhuma dupla mista. Primeiro o grupo dos homens faria os exercícios, depois abandonariam a sala para dar vez à turma feminina.

4. Enfim, todos esses não são grandes acontecimentos, mas é justamente por fazerem parte do cotidiano que os considero relevantes. Para quem quer dar gargalhadas e se aventurar pela capital através da literatura, recomendo Um brasileiro em Berlim, do escritor João Ubaldo Ribeiro. O livro é de 1995, ou seja, muita coisa mudou de lá pra cá. Só que Berlim continua Berlim, como cantou a legendária Hildegard Knef, “Berlin bleibt doch Berlin”.

5. Pode até continuar sendo a mesma cidade, mas e o seu mascote, também fica? Se Berlim vem passando por tantas transformações, por que não mudar também o símbolo da cidade? O tão festejado urso berlinense, encontrado em várias cores e formatos nas esquinas, lojas e bandeiras da capital, está ameaçado de extinção. Seu substituto seria outro mascote, disponível também em vários tamanhos e cores: a camisinha! Numa jogada de marketing, o empresário Tobias Oertel vem tentando introduzir o novo souvenir na imagem turística da cidade. Eu acho que a ideia não vai pegar, mas, como o futebol, Berlim é uma caixinha de surpresas.

* Yara es periodista brasileña y trabaja actualmente en proyectos culturales en Berlín. Recibió su título de maestría en Medios, Comunicación y Estudios Culturales de las Universidades de Kassel (Alemania) y Londres (Inglaterra).

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